30 dezembro, 2012

Despedidas.


Não, não estive muito tempo abraçada a vocês. Não tirei demasiadas fotografias. Não dei gargalhadas suficientes. Não passeei que chegasse. Não aprendi tudo o que quis. Não fiquei minutos suficientes com dores nas bochechas de tanto rir. Não adormeci vezes que cheguem no sofá. Não tive noitadas que me bastassem.

Não. Não foi tempo demais.

Passou um ano.

Mudei. Mudaste. Mas continuo a querer jantares em casa com muitos amigos. Fotografias a fazer caretas. Continuo a querer ouvir as histórias mirabolantes de cada um de vocês. A desejar rir e rebolar no chão. Continuo a sonhar com os fins de semana calmos. Continuo a querer aprender. A cada dia. Todos os dias. A ir à praia. Ir a Sintra. Ir a Belém. Continuo a querer viajar pelo Mundo. A sonhar adormecer no sofá, do vosso lado. Depois de uma noitada. Depois de uma boa conversa.

Passou um ano. Mas nunca passamos tempo suficiente com aqueles que amamos. Nunca somos felizes que chegue. Porque quando estamos com quem amamos queremos sempre mais. Mais vida. Mais minutos. Mais horas. Horas de risadas. Horas de segredos confessados. Horas de copos a mais. Horas de pureza. Horas de calma e felicidade. Horas. Minutos. Segundos.

Segundos. Bastou um segundo de distracção. Pensei que tinha perdido tudo.

Não perdi.

Estou aqui.
Onde? Não sei.

Continuo a habitar este corpo. Continuo a caminhar estrada fora.

Vou continuar.

Vamos continuar todos.

Caminhamos sempre para continuar. Mesmo sem saber o rumo. Mesmo sendo no desconhecido.

Precisamos de mudança.

Dois mil e treze. Ano novo. Objectivos novos. Vive. Sê. Sê inteiro. Ri. Chora. Dança. Canta. Passeia. Entrega-te. De corpo e alma. Ama. Ama os teus amigos. Ama a tua família. Ama quem te ama. Ama. Com o coração. Com o coração e as tripas de fora. Ama como se o mundo acabasse amanhã. E amanhã ama como se o mundo acabasse depois de amanhã. Dá-te. Atira-te de cabeça. Faz disparates. Bebe copos a mais. Pinta. Lê. Viaja. Muito. Dentro de ti. Contigo. Com os outros. Conhece novos mundos. Novas perspectivas. Novas vidas. Novas pessoas. Sorri. Com o gesto mais simples. Com a atitude mais tola. Salta. Salta etapas. Arrisca. Sem medos. Perde-te. No local mais óbvio. No sítio mais longínquo. Encontra-te. Aproveita. Encoraja os que têm medo. Aprende com os que sabem mais e também com os que sabem menos. Faz coisas novas. Passeia. Nos mesmos locais de sempre. Ou em sítios desconhecidos. Muda. Para melhor. Para pior. Para o que tiver que ser. Acredita. Faz jogos. Dá o primeiro passo. Faz valer a pena. Faz como gostas. Conhece-te. Conhece os outros. Aproveita o que cada um te pode dar. Dá-te aos outros. Inspira. Expira. Experimenta. Vê mais filmes. Apaga quem não sabe lutar. Luta. Não deixes nada por dizer. Sê verdadeiro. Sem mentiras. Supera-te. Vive um dia de cada vez. Sem pressas. Sê. Feliz. Tu. Contigo. Com os outros. Com o mundo. Sê. Único. Especial. Não olhes para trás.

Dois mil e treze.

Ano novo.

Fecho o meu dois mil e doze, com a certeza que arrisquei quando devia. Que não tive medo. Que segui sem olhar para trás. Fecho o meu dois mil e doze com a certeza que me quero continuar a superar a cada dia que passa, Que quero ser melhor. Melhor fisioterapeuta. Melhor amiga. Melhor filha. Melhor Irmã. Melhor tia. Melhor prima. Melhor sobrinha. Melhor para quem me ama. Fecho dois mil e doze feliz. Feliz pelo passo que dei. Feliz por ter arriscado. Feliz com as novas conquistas. Feliz com a minha nova vida.

A tristeza? Essa apenas existe por terem desistido. De mim. Uma tristeza que se atenua a cada dia. Uma tristeza que é ultrapassada por cada minuto de felicidade junto dos que me fazem acreditar que a distância não significa ausência.


Dois mil e doze deu-me a certeza que basta acreditar. Basta querer. Dois mil e doze deu-me vontade de querer viver dois mil e treze.


Obrigada. Obrigada dois mil e doze.

Obrigada enorme a quem o viveu comigo. A quem me fez sorrir. A quem me deixou acreditar. A quem me faz acreditar que existe amor puro. Que existem boas pessoas. Que existe felicidade.


Ainda não sei quem sou. Mas sei quem quero ser.


Estou à tua espera, dois mil e treze.


16 dezembro, 2012

Fotografias a preto e branco.


Peguei na máquina fotográfica. Escolhi a melhor objectiva e saí. Para trás deixei a porta fechada. Memórias. Outras fotografias. Outros momentos. Sorrisos. Lágrimas. Abraços. Amizades. Passeios. Viagens.

Pensei dois minutos em voltar. Pensei. Ia virar a cabeça quando algo dentro de mim me disse. Não olhes para trás. Não olhei. De repente todas as cores em mim desapareceram. A viagem tinha começado. Era outra vez feita de preto e branco. Era simples. Era feita de nada e ao mesmo tempo feita de todas as cores que já me tinham pintado.


Naquele segundo. Fechei os olhos. Pensei como tinha sido amada. Pensei em cada aventura. Em cada mimo. Em cada pessoa que continuava a pintar as cores em mim. Pensei no quadro que já estava apenas a meio. Pensei nas cores que se apagaram por decisões insensatas. Pensei na fraqueza do amor. Pensei na força da amizade. Olhei para cima. Tinha as escadas do avião. Subi-as uma por uma. Respirei fundo a cada passo. Acenava-vos com a mão e ao mesmo tempo mais uma cor se apagava dentro de mim. Estava cada vez mais a preto e branco. O sorriso forçado deixava escapar os suspiros de medo e vontade de ficar. As cores. Vi-as fugir. Uma a uma. Devagar.

Entrei no avião. Sentei-me no banco e suspirei. Começou. Pensei para mim. Estás vazia. Não. Estás cheia. De saudade. De momentos. De vida. Estás cheia. O avião cheio de pessoas. E eu ali. Sozinha. Perdida entre os momentos. Tanto por viver. Já não havia como voltar para trás. Fecharam a porta do avião. Senti-me a sufocar. Aguentei trinta minutos até que a chuva de momentos começou a escorregar pelas bochechas. As cores apagaram-se. As fotografias eram todas, agora, a preto e branco. E as cores? Porque fugiram?


Porque me deixaram fugir?


Respirei fundo. Agarrei com força a máquina fotográfica. As cores vão acabar por aparecer. Vai haver quem pinte o quadro da tua vida. Novas pessoas. Amigos de sempre. Que vão continuar a pintar.


As cores vão voltar. Assim como eu.


Não é o fim. A viagem continua. A pouco e pouco. Fui ganhando cor. Já estava a quilómetros de distância de mim. Mas senti-me a colorir. Cada pessoa nova. Uma nova cor. Novos momentos.

A máquina fotográfica. A objectiva. Capta os melhores momentos. Aqueles que um dia possso esquecer. Por força da idade. Por simples esquecimento. A máquina. Capta o novo sorriso. Ainda não verdadeiro. Ainda não feliz. Mas ainda assim.

Um sorriso. A preto e branco.


Hoje. Sentada no meu novo quarto. Sem as minhas companheiras habituais de casa. Sei que vou continuar a preto e branco. Sei que há cores que mais ninguém vai conseguir pintar. Sei que há fotografias que me deixam a lágrima ao canto do olho. Sei que há cores que apenas, vocês, vão pintando em mim.


Hoje sei que estar aqui me traz fotografias novas. Novas cores. Novas sensações. Revelações pequenas. Pessoas diferentes. Hoje sei que me cabe apenas a mim, integrar-me nesta nova tela. Pintar aos poucos cada pedaço de mim. E ir também pintando quem fica comigo. Quem apesar de longe, está perto. A pintar aos poucos o meu novo sorriso. O brilho no meu olhar. Quem apesar de perto, ainda está longe. Mas vai também pintando.


As fotografias a preto e branco são também boas recordações. São memórias que não esqueço. São momentos que guardei dentro de mim. As cores, dessas fotografias. Essas cores. Vão voltando. Aos poucos. Devagar. Uma a uma.

As cores de felicidade.

As cores. Que vão dando cor, aos sonhos. 

09 dezembro, 2012

Um dia...


Recebi uma caixa no outro dia. Cheia de amor. Cheia de recordações. Uma caixa pequena que transborda alegria. Uma pequena caixa que guardava sempre fechada. Bem como as recordações que ela contém.

Até ontem.


Fui de mansinho, peguei na caixa. Não me lembrava da última vez que o tinha feito. As mãos tremiam e o coração batia a mil à hora. Será que devia? Estaria já preparada para abrir a caixa que tinha sido motivo de tanta felicidade? Arrisquei. Abri. E num ápice o meu quarto encheu-se de memórias. De momentos bem vividos. De abraços perdidos. De palavras esquecidas entre gestos mais significativos.

De repente, tudo começou a doer. Desde a ponta do dedo que abriu a caixa. Até à célula mais pequenina do meu coração. Entre post-its escritos com amor, pedras que guardam segredos e fotografias que falam por si. Cada pedaço de ti encheu o meu corpo. E mesmo com ele cheio de ti, senti-me vazia. Vazia de amor. Vazia e perdida.

Fechei a caixa.

Na tentativa que com ela desparecessem também as recordações. Mas não desapareceram. Ficaram ao meu lado, à minha frente. Dentro de mim. Percebi que ainda não estava preparada para abrir a caixa. Mas já era tarde demais. As memórias estavam cada vez mais presentes. E o presente estava cada vez mais distante. Encrustaste-te em mim. Outra vez. E senti-me de novo aquela menina pequena a quem largam a mão no primeiro dia de escola. Senti-me desprotegida. Senti-me perdida. Tal e qual como me senti quando largaste a minha mão naquele banco de jardim.

O sol brilhava cá fora. O sorriso rasgava-se mas o coração, lá dentro. Deixava as lágrimas cair. A dor voltou. Talvez com ela o coração também. Aquele que me levaste no dia que me deixaste partir. Aquele onde foste plantando o teu jardim. E que agora está cheio de flores que deixaste morrer. Cheio de feridas abertas. Todas elas por cicatrizar. Feridas.

Foste a melhor parte da minha vida. Não tenho medo de o dizer. Porque foste. E de alguma forma, ainda o és. Alimentavas cada pedaço de mim. Eras o meu combustível. Contigo a gargalhada era a mais verdadeira que já alguma vez tinha dado. Contigo. Era tudo. E mais ainda. Sentia-me tudo. Apesar de não o ser. Sentia-me perfeita.

Ontem abri a caixa. E voltei a fechar o meu coração lá dentro. Com mais chaves ainda. Para que ninguém lhe possa fazer o mesmo que tu lhe fizeste. Vai ficar lá sozinho. À espera da melhor oportunidade para sair. Sem cair de novo.

Até lá vou-me enchendo de outras recordações. Umas melhores que outras. Umas mais importantes que outras. Até lá. Vou procurar outra caixa para guardar cada memória. E talvez. Talvez, um dia. Possas também entrar nesta nova caixa de recordações. Sem que doa. Sem deixares feridas por sarar. Talvez um dia, voltes. Devagar. A ser uma recordação que não dói.

Mas até lá. Vais pairando por aqui. Vais-me relembrando os passeios infindáveis. O calor do teu abraço. O sorriso ingénuo. Os olhos brilhantes. A plenitude. A pureza. A sinceridade. Vais-me relembrando da segurança dos teus braços. De como era dar-te a mão. Poder cruzar os meus dedos nos teus. Da simplicidade do amor.

Até lá vais-me relembrando de como, um dia, eu fui...

Verdadeiramente feliz. 

06 dezembro, 2012

Livro da vida.


Escrevemos. A cada dia uma linha diferente. A cada semana uma palavra mais intensa. Os sentimentos mudam. As frases que disse hoje posso senti-las de forma diferente amanhã. Muitos dizem que tudo na vida é efémero. Outros, os mais sábios, aproveitam o que a vida lhes dá de bom. Sem acreditar na sua efemeridade. E lutando pela sua permanência.

Vivi. Aqui, ali. E agora ainda mais longe. Aproveitei e entreguei-me. Em todos os momentos. A cada segundo. De alma e coração. Transpirei de felicidade. E chorei com quem estava triste. Dei a mão sempre que de mim precisaram e sorri para ver alguém feliz. Continuo a fazê-lo. Continuo de coração cheio apesar de perdido. Continuo de brilho nos olhos, apesar de menos intenso.


Mudou tudo.


O livro ficou de repente de pernas para o ar e respirar tornou-se das tarefas mais difíceis. Segurei os pés e agarrei-me ao parapeito da janela quando me roubaram o chão. Continuei docemente e com cuidado até chegar a solo firme. Aguentei-me. Sobrevivi a empurrões no meio da rua. Levantei-me sempre que as pernas foram falhando. Encorajei-me sempre a seguir cada pedaço do meu caminho mesmo que os pés ficassem colados ao chão e as pernas tremelicassem com medo de falhar. Fui buscar as forças ao mais interior do meu ser. Fui procurar a felicidade no cantinho mais pequeno da minha vida. No ponto mais insignificante.


Mas não se iludam. A felicidade tem tanto de simples como de complexo. Tem tanto de doce como de amargo. Não se alcança. Mas vive-se a cada momento. A cada segundo. Podemos aproveitar enquanto a temos entre mãos ou simplesmente deitá-la pela janela à primeira oportunidade. Mas e se depois ela não volta? Se se perde entre sentimentos disfarçados?


Continuei a escrever. Continuei a sentir a caneta a cair dos meus dedos. E a tinta a falhar no papel.

A felicidade.

Porque a procuramos se ela está ao nosso lado. Se ela está no gesto mais simples e no acto mais corajoso. Porque a desejamos se a temos entre mãos e a desperdiçamos a cada segundo que olhamos para trás? 

Terá tudo isto algum significado particular? Penso que não. Pelo menos eu não o encontro.

Os passos que dou e as palavras que escrevo entre desabafos e confidências. São eles que são o espelho da felicidade. Aproveitada ou não. Mais vivida ou mais desperdiçada. Depende de mim. Depende de ti. Depende de nós. Depende do que quisermos escrever.

Nas linhas da nossa vida. Nas memórias do nosso coração.


É difícil apagar quando escrevemos a caneta. A felicidade ficou ali. Guardada naquele canto de nós. Não saiu para passear. Está lá. Mesmo que não a consigas ver. Mesmo que aches que a vais encontrar noutro lado. Ou que vais em busca dessa mesma mais tarde. Felicidade como esta, não vais alcançar. Chamo-lhe plenitude. Chamo-lhe serenidade.

Se a desperdiçaste. Se começaste a escrever noutro livro. Não te posso roubar a caneta. Apenas te posso dizer. Vive. Ama. Luta. É disso que é feita a felicidade. De nós e das relações para as quais vivemos. Vivo para ti. Que estás a ler estas pequenas palavras. Estas linhas de amizade. Vivo para aqueles que amo.

Para os que querem escrever no meu livro. Para os que vão deixando a sua marca e não abandonam. Vivo para quem me ama. Escrevo no teu livro também. Deixo a minha amizade. Dou o meu amor. Atiro-me de cabeça e ponho as mãos no fogo se for preciso.

Sou feita de ti. Sou feita de palavras e de momentos. Sou feita de felicidade. Sou feita de ternura. Sou feita dos abraços. Sou feita do meu livro, mas também sou feita do teu.

Sou feita de relações.

E é assim que consigo ser feliz. Sem efemeridades.

E aos poucos vou pondo o meu livro novamente no lugar.

Na prateleira que deve ficar. Algures entre o amor a dar e a amizade partilhada...


30 novembro, 2012

Zona de conforto.


Um dia saltei de uma ponte. Dei o passo que me deixou entre 5 segundos de queda livre e muitos minutos de adrenalina.

Não foi difícil. Pelo menos não tanto como este passo.

Muitos podem dizer que fugi. Mas eu sei que não o fiz. Outros podem dizer que tenho coragem. Mas também sei que não a possuo. Chateia-me quem me julga, estando eu nesta condição. Chateia-me que pensem que é fácil. Que pensem que abandonei. Chateia-me que não se tentem pôr deste lado.

Não era feliz. Pelo menos a 200%. Não era. Aos poucos criei à minha volta uma redoma que raramente se abria para dar entrada a coisas novas na minha vida. Avancei as coisas a tal ponto, que nem a minha presença suportava ao meu lado. Baixei os braços, é verdade. Mas apenas os baixei porque sabia que me esperava outra coisa. Estava só à espera do momento certo.

Mas, nunca há um momento certo. Nunca há. Para se deixar para trás tudo o que nos fez sorrir. Todos os momentos. Todas as pessoas. Todos os telefonemas. Todos os sorrisos. Tudo. Arriscas e passadas umas semanas enfrentas o risco de perder tudo o que construíste.

Foi Portugal que não me deixou lutar por mim. Pela pessoa que sou. Pela pessoa que me tornei. Enquanto fisioterapeuta. Enquanto amiga. Enquanto irmã. Enquanto tia. Enquanto namorada. Enquanto filha. Enquanto prima. Só me rodeavam condições precárias e pouca vontade de viver. Quem me falava, sobrevivia. Não vivia. E eu, fazia apenas parte desse grande grupo de portugueses. Esse grupo que dizia que tinha de sair do país. Que tinha de ser. Mas que deixava as coisas andar. Que as deixava correr.

Até ao dia. Que sentada em Belém. À beira-tejo. Com o sol a esconder-se entre a água e as nuvens. Decidi dar o passo que mudaria a minha vida. A partir daquele minuto, soube que não poderia jamais olhar para trás.

Portugal abandonou-me. E eu decidi abandoná-lo também. Decidi lutar por mim. Decidi formar-me num país que apesar de não ser meu, me oferece as condições que preciso para crescer, e para quem sabe, um dia, voltar ao país que me deixou escapar.

Houve palavras de coragem. Mas também houve muitas palavras amargas. Que deixaram um vazio no meu coração. Parti, com a certeza que não tinha dito a todos os que amava, o quanto os amava. Parti, com a certeza, que agora mais do que nunca, teria de me encontrar algures entre França e Portugal. Teria de procurar a fisioterapeuta, a amiga, a filha, a irmã, a tia, a prima, mas acima de tudo. A Gisela. A que tinha desaparecido meses atrás. A que se escondia com medo de errar. A que se deixou apagar, entre promessas e vontades. Entre sentimentos e (in)certezas.

Quando dei por mim. Estava ali. No aeroporto. Prestes a passar a porta do segurança. Deixando olhares de orgulho e tristeza para trás. Estava ali. E os pés pareciam ter vontade mas ao mesmo tempo não querer mexer. Consegui. Entrei no avião de sorriso na cara mas de coração partido. Começara ali a maior aventura da minha vida.

Ousei. Dei o passo que me fez saltar da ponte. Dei o passo que me roubou o conforto dos abraços. A ternura dos sorrisos. A doçura das palavras. Superei a dor de partir. Sem olhar para trás.

Continuam a existir os que pensam que é fácil. Os que dizem que não percebem. Os que desejam fazer o mesmo. Estão em Portugal, a maioria. Não os critico. Também demorei tempo a assimilar que era a decisão mais acertada. Os minutos são preciosos quando o relógio da vida vai passando por nós.

Arrependida? Não. Não poderia quando cinco minutos de trabalho me fazem perceber a importância que tenho no mundo. Quando um dia de semana me faz parecer a melhor fisioterapeuta do planeta. Quando cada palavra que ouço é de alento e de força. Quando um doente meu começa a andar depois de meses deitado numa cama de hospital.

Nunca damos o devido valor às coisas. Ao que vivemos e ao que poderíamos viver. Deixamos andar porque está bem assim, ou porque mesmo que não esteja vamos arranjando soluções.

Lá no meu país, deixei amigos e família. E o mais importante. O meu coração.

Não me deixaste lutar. Permitiste que fugisse e agora não me podes apontar o dedo. Um dia hei-de voltar para ti, Portugal.

E vou recuperar-te o meu coração.

Até lá. Fico por aqui. A fazer a diferença. A descobrir-me e a encontrar-me todos os dias. A aprender. A ouvir elogios. A aventurar-me e a descobrir coisas novas.


Perdida.


Neste Mundo que está, também ele, cada vez mais perdido.



28 novembro, 2012

Essências...

A verdade.

A primeira coisa, ou das primeiras que faço quando estou em crise, é escrever. Revolto-me com o papel para não me revoltar com as pessoas. E mesmo assim, de vez em quando, acabo por me revoltar com ambos. Está na minha essência. Assim como a verdade.

Digo o que sinto e o papel é o meu confidente. Lê e interliga cada palavra. Cada letra. Observa a forma como a caneta falha nos meus dedos, em dias mais frágeis. Ou como a agarro com força, em dias de raiva. Hoje, pela primeira vez, estou a trespassar a linha que me une ao papel. 

Ninguém me pediu que o fizesse. Ninguém. A não ser o meu coração. E é a ele. Só a ele. 

Que está tão distante.

Que continuo fiel. 

Estas linhas vão ser alvo de desabafos desesperados. De gritos de loucura. Mas, também, de momentos de alegria. De insónias de felicidade. 

Hoje, estou aqui. Longe. 

Amanhã estarei aqui. Longe.

E estas palavras. Pequenas. Doces. Encurtam a distância num minuto.