30 novembro, 2012

Zona de conforto.


Um dia saltei de uma ponte. Dei o passo que me deixou entre 5 segundos de queda livre e muitos minutos de adrenalina.

Não foi difícil. Pelo menos não tanto como este passo.

Muitos podem dizer que fugi. Mas eu sei que não o fiz. Outros podem dizer que tenho coragem. Mas também sei que não a possuo. Chateia-me quem me julga, estando eu nesta condição. Chateia-me que pensem que é fácil. Que pensem que abandonei. Chateia-me que não se tentem pôr deste lado.

Não era feliz. Pelo menos a 200%. Não era. Aos poucos criei à minha volta uma redoma que raramente se abria para dar entrada a coisas novas na minha vida. Avancei as coisas a tal ponto, que nem a minha presença suportava ao meu lado. Baixei os braços, é verdade. Mas apenas os baixei porque sabia que me esperava outra coisa. Estava só à espera do momento certo.

Mas, nunca há um momento certo. Nunca há. Para se deixar para trás tudo o que nos fez sorrir. Todos os momentos. Todas as pessoas. Todos os telefonemas. Todos os sorrisos. Tudo. Arriscas e passadas umas semanas enfrentas o risco de perder tudo o que construíste.

Foi Portugal que não me deixou lutar por mim. Pela pessoa que sou. Pela pessoa que me tornei. Enquanto fisioterapeuta. Enquanto amiga. Enquanto irmã. Enquanto tia. Enquanto namorada. Enquanto filha. Enquanto prima. Só me rodeavam condições precárias e pouca vontade de viver. Quem me falava, sobrevivia. Não vivia. E eu, fazia apenas parte desse grande grupo de portugueses. Esse grupo que dizia que tinha de sair do país. Que tinha de ser. Mas que deixava as coisas andar. Que as deixava correr.

Até ao dia. Que sentada em Belém. À beira-tejo. Com o sol a esconder-se entre a água e as nuvens. Decidi dar o passo que mudaria a minha vida. A partir daquele minuto, soube que não poderia jamais olhar para trás.

Portugal abandonou-me. E eu decidi abandoná-lo também. Decidi lutar por mim. Decidi formar-me num país que apesar de não ser meu, me oferece as condições que preciso para crescer, e para quem sabe, um dia, voltar ao país que me deixou escapar.

Houve palavras de coragem. Mas também houve muitas palavras amargas. Que deixaram um vazio no meu coração. Parti, com a certeza que não tinha dito a todos os que amava, o quanto os amava. Parti, com a certeza, que agora mais do que nunca, teria de me encontrar algures entre França e Portugal. Teria de procurar a fisioterapeuta, a amiga, a filha, a irmã, a tia, a prima, mas acima de tudo. A Gisela. A que tinha desaparecido meses atrás. A que se escondia com medo de errar. A que se deixou apagar, entre promessas e vontades. Entre sentimentos e (in)certezas.

Quando dei por mim. Estava ali. No aeroporto. Prestes a passar a porta do segurança. Deixando olhares de orgulho e tristeza para trás. Estava ali. E os pés pareciam ter vontade mas ao mesmo tempo não querer mexer. Consegui. Entrei no avião de sorriso na cara mas de coração partido. Começara ali a maior aventura da minha vida.

Ousei. Dei o passo que me fez saltar da ponte. Dei o passo que me roubou o conforto dos abraços. A ternura dos sorrisos. A doçura das palavras. Superei a dor de partir. Sem olhar para trás.

Continuam a existir os que pensam que é fácil. Os que dizem que não percebem. Os que desejam fazer o mesmo. Estão em Portugal, a maioria. Não os critico. Também demorei tempo a assimilar que era a decisão mais acertada. Os minutos são preciosos quando o relógio da vida vai passando por nós.

Arrependida? Não. Não poderia quando cinco minutos de trabalho me fazem perceber a importância que tenho no mundo. Quando um dia de semana me faz parecer a melhor fisioterapeuta do planeta. Quando cada palavra que ouço é de alento e de força. Quando um doente meu começa a andar depois de meses deitado numa cama de hospital.

Nunca damos o devido valor às coisas. Ao que vivemos e ao que poderíamos viver. Deixamos andar porque está bem assim, ou porque mesmo que não esteja vamos arranjando soluções.

Lá no meu país, deixei amigos e família. E o mais importante. O meu coração.

Não me deixaste lutar. Permitiste que fugisse e agora não me podes apontar o dedo. Um dia hei-de voltar para ti, Portugal.

E vou recuperar-te o meu coração.

Até lá. Fico por aqui. A fazer a diferença. A descobrir-me e a encontrar-me todos os dias. A aprender. A ouvir elogios. A aventurar-me e a descobrir coisas novas.


Perdida.


Neste Mundo que está, também ele, cada vez mais perdido.



28 novembro, 2012

Essências...

A verdade.

A primeira coisa, ou das primeiras que faço quando estou em crise, é escrever. Revolto-me com o papel para não me revoltar com as pessoas. E mesmo assim, de vez em quando, acabo por me revoltar com ambos. Está na minha essência. Assim como a verdade.

Digo o que sinto e o papel é o meu confidente. Lê e interliga cada palavra. Cada letra. Observa a forma como a caneta falha nos meus dedos, em dias mais frágeis. Ou como a agarro com força, em dias de raiva. Hoje, pela primeira vez, estou a trespassar a linha que me une ao papel. 

Ninguém me pediu que o fizesse. Ninguém. A não ser o meu coração. E é a ele. Só a ele. 

Que está tão distante.

Que continuo fiel. 

Estas linhas vão ser alvo de desabafos desesperados. De gritos de loucura. Mas, também, de momentos de alegria. De insónias de felicidade. 

Hoje, estou aqui. Longe. 

Amanhã estarei aqui. Longe.

E estas palavras. Pequenas. Doces. Encurtam a distância num minuto.