Um
dia saltei de uma ponte. Dei o passo que me deixou entre 5 segundos de queda
livre e muitos minutos de adrenalina.
Não
foi difícil. Pelo menos não tanto como este passo.
Muitos
podem dizer que fugi. Mas eu sei que não o fiz. Outros podem dizer que tenho
coragem. Mas também sei que não a possuo. Chateia-me quem me julga, estando eu
nesta condição. Chateia-me que pensem que é fácil. Que pensem que abandonei.
Chateia-me que não se tentem pôr deste lado.
Não
era feliz. Pelo menos a 200%. Não era. Aos poucos criei à minha volta uma
redoma que raramente se abria para dar entrada a coisas novas na minha vida.
Avancei as coisas a tal ponto, que nem a minha presença suportava ao meu lado.
Baixei os braços, é verdade. Mas apenas os baixei porque sabia que me esperava
outra coisa. Estava só à espera do momento certo.
Mas,
nunca há um momento certo. Nunca há. Para se deixar para trás tudo o que nos
fez sorrir. Todos os momentos. Todas as pessoas. Todos os telefonemas. Todos os
sorrisos. Tudo. Arriscas e passadas umas semanas enfrentas o risco de perder
tudo o que construíste.
Foi
Portugal que não me deixou lutar por mim. Pela pessoa que sou. Pela pessoa que
me tornei. Enquanto fisioterapeuta. Enquanto amiga. Enquanto irmã. Enquanto
tia. Enquanto namorada. Enquanto filha. Enquanto prima. Só me rodeavam
condições precárias e pouca vontade de viver. Quem me falava, sobrevivia. Não
vivia. E eu, fazia apenas parte desse grande grupo de portugueses. Esse grupo
que dizia que tinha de sair do país. Que tinha de ser. Mas que deixava as
coisas andar. Que as deixava correr.
Até
ao dia. Que sentada em Belém. À beira-tejo. Com o sol a esconder-se entre a
água e as nuvens. Decidi dar o passo que mudaria a minha vida. A partir daquele
minuto, soube que não poderia jamais olhar para trás.
Portugal
abandonou-me. E eu decidi abandoná-lo também. Decidi lutar por mim. Decidi
formar-me num país que apesar de não ser meu, me oferece as condições que
preciso para crescer, e para quem sabe, um dia, voltar ao país que me deixou
escapar.
Houve
palavras de coragem. Mas também houve muitas palavras amargas. Que deixaram um
vazio no meu coração. Parti, com a certeza que não tinha dito a todos os que
amava, o quanto os amava. Parti, com a certeza, que agora mais do que nunca,
teria de me encontrar algures entre França e Portugal. Teria de procurar a
fisioterapeuta, a amiga, a filha, a irmã, a tia, a prima, mas acima de tudo. A
Gisela. A que tinha desaparecido meses atrás. A que se escondia com medo de errar.
A que se deixou apagar, entre promessas e vontades. Entre sentimentos e (in)certezas.
Quando
dei por mim. Estava ali. No aeroporto. Prestes a passar a porta do segurança.
Deixando olhares de orgulho e tristeza para trás. Estava ali. E os pés pareciam
ter vontade mas ao mesmo tempo não querer mexer. Consegui. Entrei no avião de
sorriso na cara mas de coração partido. Começara ali a maior aventura da minha
vida.
Ousei.
Dei o passo que me fez saltar da ponte. Dei o passo que me roubou o conforto
dos abraços. A ternura dos sorrisos. A doçura das palavras. Superei a dor de
partir. Sem olhar para trás.
Continuam
a existir os que pensam que é fácil. Os que dizem que não percebem. Os que
desejam fazer o mesmo. Estão em Portugal, a maioria. Não os critico. Também
demorei tempo a assimilar que era a decisão mais acertada. Os minutos são
preciosos quando o relógio da vida vai passando por nós.
Arrependida?
Não. Não poderia quando cinco minutos de trabalho me fazem perceber a
importância que tenho no mundo. Quando um dia de semana me faz parecer a melhor
fisioterapeuta do planeta. Quando cada palavra que ouço é de alento e de força.
Quando um doente meu começa a andar depois de meses deitado numa cama de
hospital.
Nunca
damos o devido valor às coisas. Ao que vivemos e ao que poderíamos viver.
Deixamos andar porque está bem assim, ou porque mesmo que não esteja vamos
arranjando soluções.
Lá
no meu país, deixei amigos e família. E o mais importante. O meu coração.
Não
me deixaste lutar. Permitiste que fugisse e agora não me podes apontar o dedo.
Um dia hei-de voltar para ti, Portugal.
E
vou recuperar-te o meu coração.
Até
lá. Fico por aqui. A fazer a diferença. A descobrir-me e a encontrar-me todos
os dias. A aprender. A ouvir elogios. A aventurar-me e a descobrir coisas
novas.
Neste
Mundo que está, também ele, cada vez mais perdido.
