04 abril, 2013

Corda bamba.


Respiro. Profundamente. Antes de tomar cada decisão. Antes de me convencer que por mais que custe, é o que deve ser feito. Inspiro. Expiro. Sinto cada célula do meu corpo a assimilar a informação. Devagar. Não temos nunca pressa para as decisões que mudam a nossa vida.

Temos tudo. Amigos à volta. Família mesmo ali ao lado. Um sorriso rasgado. Cafés semanais com quem gostamos. Jantaradas em casa até a manhã chegar. Confissões entre passeios perdidos em Lisboa. Em Portugal. Temos tudo. E mesmo assim falta qualquer coisa. Falta-nos sempre alguma coisa. Faltou-me o trabalho. Faltou-me a força para lutar por algo que não via ter pernas para andar. Faltou-me. Respirei. Profundamente. E parti.

6 meses. Que bem resumidos. Continuam a ser 6 meses. 6 meses de células a assimilar novas informações. 6 meses cheios de lutas interiores. 6 meses a aprender. 6 meses de pessoas a sentir a minha falta. 6 meses de saudades enormes. 6 meses. Já lá vão 6 meses. Meio ano. Meio ano em que me senti mais fisioterapeuta que em dois anos. Meio ano em que ouvi elogios. Meio ano em que me senti respeitada. Meio ano que já parece uma vida. Meio ano de decisões importantes. Meio ano de emigração. Meio ano. Isto já dura há meio ano.

Ainda há dúvidas. Vontades. Ainda há grandes espaços por preencher. Ainda há quem comente aqui e ali que não é a melhor solução. Ainda há quem me admire. Ainda há quem diga que tenho muita coragem. Não tenho nada disso. Nem razões para ser admirada. Nem coragem. Nem sei se é a melhor solução. Não sei. Ainda não sei. Mas o que sei é que é uma solução. É a solução em que sinto que a vida faz sentido. Que os quatro anos que passei em Lisboa a estudar tiveram significado. Que a escolha que fiz com os meus ligeiros 17 anos, estava acertada. É isto que eu quero. Ser fisioterapeuta. Arrancar um sorriso ao paciente mais triste. Ao que tem mais razões para não sorrir. Quero lutar com alguém. Para o pôr a andar depois de um acidente quase fatal. Para o ver correr depois de estar meses deitado numa cama sem quase se mexer. É isto que eu quero. Com todas as células do meu corpo. Sentir-me útil. Sentir-me amada. E sentir que deixo um bocadinho de mim na vida dos outros. Seja como fisioterapeuta. Como amiga. Como colega. Como irmã. Como filha. Como pessoa. O que for. Quero ter a certeza que esta foi a decisão acertada. Ainda há dúvidas. Estranho seria se não houvesse.

Células. Todos somos feitos delas. Umas mais pequenas. Outras maiores. Umas com com mais memórias. Outras com menos. Todos temos milhares de células. Todos nos usamos delas. Seja para mexer um braço. Seja para entrar num avião. Seja para experimentar coisas novas. Cada célula tem a sua memória. E são essas mesmas células que, após uma respiração profunda, nos permitem tomar uma decisão. Foram essas mesmas células. As minhas, claro está. Que me fizeram e fazem estar aqui hoje.

Continua a faltar-me a interacção com as células que deixei em Portugal. Todos deixamos células onde passamos. Continua a faltar-me o meu lindo Portugal. Do qual falo todos os dias. Continua a faltar-me a vista sobre o Tejo. As paisagens selvagens do Gerês. O conforto da casinha. A comida deliciosa. As festas loucas de faculdade. Os abraços sinceros e sentidos. Os dias de família. Os sorrisos inocentes. Os choros de alegria. Continua a faltar-me. Mas ao mesmo tempo vou preenchendo esse espaço. Com novas células. Novas pessoas. Novos sorrisos. Novas rotinas. Novas experiências. Novos amigos. Novos sentimentos. Estar distante. De Portugal. Dá-me também a oportunidade de aprender com qualquer pessoa que se cruze no meu caminho. Dá-me a oportunidade de sentir que a nossa casa é onde o nosso coração estiver. E o meu vai começando a estar aqui também. Senão não faria sentido. Estar aqui.

Já lá vão 6 meses. 6 meses em que tanta coisa mudou. Há mais para contar. Há mais para viver. Mais minutos para aproveitar. Mais alegrias para partilhar. Há mais amor para dar. Há sempre mais amor para dar. Há células mortas. E há células que renascem aos poucos. Há uma vida que se cria por detrás da que já existia. Há uma nova vida.

Aqui.
Onde estou.
Uma nova vida.
Novos momentos.

Novas células que partilho.

Nesta corda bamba.

Entre Portugal e França.



Já lá vão 6 meses…

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