No outro dia lembrei-me de ti. Tinha uma paciente à minha frente que
tremia. Não era medo. Antes fosse, pensei eu. E falei com ela. Como nunca pude
falar contigo. Fui imediatamente transportada para aqueles tempos que
misturavas o Francês com o Português. Que me mandavas comprar palitos em vez de
fósforos e que me ensinavas a jogar às pedrinhas na praia. O tempo passou.
Estás bem longe. E vou precisar de muito mais que umas férias de Verão para
te poder visitar. A ti e a eles.
Custa sempre mais aqui sabes? Não sei como é que vocês fizeram tantos anos,
mas gostava de descobrir esse segredo. Espero descobri-lo um dia.
Mudamos de vida, às vezes, como quem muda de camisa. Dizemos que não é tão
difícil como parece. Sorrimos. Contamos histórias e damos a entender que
estamos num conto de fadas. E é, de um certo modo. Mas como suportar o outro
lado da moeda. As dificuldades. Os desafios. Os obstáculos... Ainda não
descobri. Acordo todos os dias a pensar nisso. Hoje era um bom dia para ser
feliz. E depois penso. Ainda não é hoje.Não se pode ter tudo, dizem os sábios.
E é verdade. Sabia disso. Sei disso e vou continuar a saber. Mas não é a
sabedoria nem as frases feitas que vão tornar esta jornada mais fácil.
A distância faz crescer. E diminui quando escrevo uma carta. Quando falo ao
telefone. Quando ligo o skype. Mas é apenas isso. Uma distância. Que apesar de
tudo se impõe à impulsividade dos sentimentos.
Caminho sem sentir os pés a avançar. Vejo sem prestar atenção ao que está à
minha frente. Aprendo sem me lembrar do que já sabia. Sorrio sem a simplicidade
habitual. Continuo sem saber para onde. Mas continuo. Porque só assim vou
chegar onde quero. Mesmo que ainda não saiba onde está esse sítio.
O medo revelou-se. Demorou. Veio de mansinho. Mas entrou pela porta de
minha casa e agora insiste em ficar. Às vezes temos de encará-lo de frente e
dizer-lhe para sair. Sem convidar. Empurrá-lo à força nem que seja pela janela.
Respirar com calma e seguir em frente. Voltar a sentir. A sorrir. A andar.
Voltar a ser. A ver. A fazer. Lembro-me do teu sorriso. Da palmada que me
darias se me visses assim. Lembro-me da doçura dos teus olhos e da preocupação
dos teus gestos. Lembro-me de como me diziam que era parecida contigo.
Impulsiva. Maluca. Acho que sou. Acho que me passaste tudo o que podias. E
ainda assim, ainda que te sinta tanto em mim e que me lembre de ti quando vejo
esta senhora. Tenho tantas saudades tuas.
A vida continua a passar. Sinto a passá-la por mim. Ou melhor, não sinto.
Foi cada aniversário. Cada festa. Cada momento que perdi. Sinto-me incompleta.
Sinto-me menos quando me devia sentir mais. Quero dar um passo mas as pernas
não avançam. Quero sorrir mas os músculos não se contraem. E como fazemos. Como
fazemos quando perdemos o controlo? O controlo sobre cada gesto? Acho que me
saberias responder a isto. E seria tão mais fácil se ouvisse essa
resposta.
Vou chegar um dia. Talvez sozinha. Vou responder como se fosses tu. Vou
vencer. Vou abraçar aqueles olhos doces dos teus bisnetos. Vou esborrachar os
pais. Vou fazer palhaçadas com as manas. Vou sorrir junto dos meus amigos. Vou
respirar. Vou sentir uma calma pura. Vou viver. Um dia vou perceber o porquê
desta jornada difícil. Um dia vou perceber porque uns dias parecem mais longos
que outros e nesse dia também vou lembrar-me de vocês. Vou dar o melhor de
mim. Sorrir. Dançar. Pular. Vou ser saltarica. Vou descobrir novos mundos. Vou
ser. Eu. Sem medos. Vou saltar de um avião. Vou enchê-lo de amor. Vou
apaixonar-me por cada gesto. Ser livre. De espírito. De mente. Vou vencer cada
dificuldade. Vou subir ao pico mais alto. Vou atirar-me de cabeça. Vou
entregar-me. Mais. Vou pintar mais cores. Tirar fotografias. Gravar memórias. Vou
chatear-me. Menos. Ou mais, dependendo da pessoa. Vou viajar. Em mim. Comigo.
Com ele. Com eles. Vou descobrir. Vou corar. Vou abraçar. Vou chorar de
alegria. Vou lutar. Sem desistir. Seguir em frente. Por ti. Sem medos. Sem
tremores. Sem lamúrias. Sem dor. Um dia vou chegar. Prometo.
Esperas por mim?

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